segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Por causa do frio...

Fora de portas, a noite fria do Natal não convidou a saídas, nem para cumprir a tradição de ficar à conversa em redor do “cepo”, no largo da escola.
Possivelmente, o frio, arrefeceu a vontade da “malta” e ninguém teve apetite para carregar "combustível" suficiente; houve “cepo”, sim, mas ardeu num ápice…
Culpa-se, ainda, o frio pela ausência dos nossos conterrâneos ausentes. Os que vieram, ficaram em bom recato, junto às lareiras – mal se deixaram ver, nem à hora da bica, depois do almoço, logo ontem, que foi domingo…

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Plátanos: é pena que não “falem”…



Terei os meus motivos para gostar do Outono, embora os desconheça. Talvez as folhas caducas exerçam sobre a minha sensibilidade algum efeito estético – de outro modo, como poderei explicar a minha atracção pelas folhas amarelecidas? Se o chão está atapetado com exemplares do tamanho da palma da minha mão, ou maiores, gosto de os pisar sem pressas, atento à surpresa de um encontro com o mais bonito. Difícil é a escolha - são todos agradáveis à vista!
Os passeios solitários sobre as folhas dos plátanos descansam-me o pensamento das coisas menos agradáveis; agora, preocupo-me com o futuro da aldeia onde nasci. Ainda que reconheça que a minha freguesia estagnou por razões que me dispenso de esmiuçar, tenho alguma dificuldade em aceitar as regras que, segundo o “Documento Verde”, lhe vão retirar o seu estatuto autárquico.
Estou junto à ponte que atravessa o rio Alva. Do lado de lá, começa outra freguesia, de onde nos separámos há oitenta e oito anos. A minha aldeia, desde 1888, ano da inauguração da ponte, cresceu de tal modo que suplantou a vila; emancipou-se e mostrou vontade de “caminhar o seu próprio caminho”. Assim o entendeu o povo, o Governo da época aceitou a separação das duas povoações, e o resto pertence à História…
Aqui, os plátanos são testemunhos vivos das quezílias entre os residentes de ambos os lados da “fronteira”. É pena que não “falem”…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fernando Pessoa -"árbitro"







Depois da assembleia da sexta feira passada, em que o povo votou a favor da integração do Barril de Alva na freguesia de Coja, devo assumir-me como "filho adoptivo" desta vila? Sendo barrilense (pela nascença), arganilense, português e  "moçambicano", começa a ser difícil o enquadramento do (meu) amor - a não ser que a mente cumpra à letra a frase de Fernando Pessoa: "A minha Pátria é a língua Portuguesa"...
Se calhar, é um exagero "chamar" Fernando Pessoa para arbitrar a minha consciência, mas é a solução que me parece mais  sincera ( digo eu, de mim para mim...).

sábado, 8 de outubro de 2011

O "estádio" do Artur


Passei  pelo sítio onde imaginei esta croniqueta, publicada no "Correio da Beira Serra" em 13 de Maio de 2009. Agora,  sem as balizas, o "estádio" é um extenso milheiral. 








Aninhado no sopé do monte, o rectângulo não deve ultrapassar os cinquenta metros quadrados.
Em cada canto, uma estaca delimita o espaço. E há duas estruturas de madeira erguidas ao alto, a “fazerem” de balizas, porque é de um “estádio” que se trata, na imaginação do pequeno Artur, quatro anos de gente…
Nota-se que o “ervado” merece cuidados técnicos, mas não há marcações, e o “penálti”, se o houver, é para cobrar mais ou menos a meia dúzia de passos da imaginária linha de baliza. Certamente, o Artur, o primo João, bastante mais crescido (vai nas treze primaveras), e o Paulo, pai do Artur, não se importam mesmo nada com as “faltas”; árbitro também não deve haver, por isso, vamos ao jogo!
A bola está à espera – já lá estava, szinha e “triste”, quando a descobrimos no “estádio vazio”, meia escondida pela “relva” – faltam os atletas e o público, possivelmente reduzido à mãe do Artur, se os afazeres lá por casa estiverem de folga.
Convém que as duas equipas tenham número igual de jogadores; à hora do jogo, devem surgir mais uns quantos amigos e então sim: começa a partida!...
… Talvez nada aconteça como imagino, e tudo não passe de uma brincadeira familiar, sempre se exercitam os músculos e o Artur dá asas ao sonho de chutar a bola num campo a sério, com balizas e tudo!...
Hoje, de manhã, li um excelente trabalho sobre o negócio das escolas de futebol, onde se realça o facto dos miúdos pagarem (os pais por eles…) determinada verba para aprenderem os truques do jogo; à tarde dei de caras com este “campinho”, quase à beira da estrada de quem vai de Vila Cova de Alva a caminho de Avô, um pouco antes da saída para Anseriz. À falta de estruturas desportivas por estas bandas, onde as crianças se entretenham nos tempos livres, a arte e o engenho de quem aproveitou determinado espaço e o adaptou a “campo de jogo” não podia ficar sem a devida nota…
O escrito sobre as escolas de futebol, a que tive acesso, deixa no ar uma questão pertinente: quem não tem disponibilidade económica, não pode ter um filho a aprender o abecedário da modalidade?
Uma bola feita a partir de uma meia, cheia de folhas de jornal, é memória dos mais antigos; o jogo acontecia onde muito bem calhava, as pastas da escola faziam de baliza, e gritava-se goooooooooolo com o mesmo entusiasmo com que se ouve nos grandes estádios! Nasceram grandes jogadores nessas partidinhas de fim de tarde ou durante o tempo de recreio na escola…
Desconheço se o menino Artur, que “treina” num campinho à porta de casa, procura imitar as fintas e remates do seu ídolo; se há admiração, por exemplo, pelo Cristiano Ronaldo, é bom que saiba, daqui a uns tempos, quais foram os princípios do seu “herói” na prática do jogo da bola.
Já agora, ainda lhe digo que o “grande” Eusébio chutava descalço durante as intermináveis partidas que tinham lugar na terra batida e poeirenta da Mafalala, em Moçambique, e nem por isso deixou de chegar onde chegou…
Que o jogo comece lá para as bandas de Anseriz, sem árbitro nem marcações no “relvado” – desde que a bola “pule e avance”, os sonhos são todos dele, do Artur, o dono “estádio”!
“Bora” lá, Artur, chuta-me essa bola, que o guarda-redes “estás de costas”!
Goooooooooolo!!!
Carlos Alberto (Vilaça)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

De "volta à minha terra"


A nostalgia tem nome: Moçambique!
Foi naquele país, decorado por deuses de múltiplas facetas estéticas, que me descobri como homem; aí cresci e quase completava determinado cíclo da minha existência quando valores mais altos se levantaram e retornei à "minha" serra e à casa onde nasci, longe do Atlântico.
Na falta de ondas e marés e sem correntes de feição, recorro à ciência para estar mais perto das razões da saudade. Os sons chegam do outro lado do mundo...
Ao serão tive companhia de elevado grau e qualidade - do locutor de serviço ao homem da técnica, de Villaret a Manuel Alegre, de Pedro Abrunhosa à "ELisa Gomara Saia", interpretado, o tema, por voz genuína, sem trejeitos...
- Um clique e "chego a casa", penso!
 Marco um número no telefone e espero dois, três segundos:
 - Bom dia, fala da Rádio Moçambique...
...
...Eram quatro da madrugada na "minha terra"!

sábado, 24 de setembro de 2011

Mais "moinhos de vento" e nem mais uma mini-hídrica

Pelo anterior Governo foi autorizada a implementação e concessão de uma mini-hídrica no rio Alva, entre Côja e Secarias, com uma potência instalada de 2 Megawatts
A obra é "irmã gémea" da que existe em Avô, à revelia da vontade da maioria do povo. Conhecidos os malefícios ambientais, agora, como antes, é altura de cada um de nós manifestar o seu repúdio:

- " BASTA, não, não quero que continuem a assassinar o nosso rio"!

Estão "na moda" os "novos moinhos de vento" que se vêm recortados no horizonte. Dom Quixote, se fosse vivo - e Miguel de Cervantes também! - era bem capaz de os "guerrear", ou talvez não... se soubesse que apenas UM destes moinhos produz, no mínimo, igual potência à da mini-hídrica que querem construir no rio Alva, a seguir a Côja!
Venham mais "moinhos", isso sim, e deixe-se o rio no sossego dos seus segredos milenares, a caminho do Mondego, que também está sujeito a crimes semelhantes - ele e o Ceira!


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Confessionário

Pensando bem, o melhor é assumir desde já a minha aversão à violência – seja ela física ou verbal.
Da primeira quero distância, e da segunda  às vezes aproximo-me - aguento-a com tento na língua e  vou à luta quando o opositor justifica que esgrima argumentos.
No confessionário admito as minhas fraquezas e a ignorância do desconhecido; apenas sei  “ ler e escrever”, e a inteligência não me presenteou com a erudição dos predestinados.
O carácter, esse desejo-o firme quando vacilo, não importa quando, onde e porquê – sendo humano, caio e levanto-me as vezes que forem precisas. Obviamente, recuso-me a existir de joelhos no limbo da minha consciência, que morrerá  inteira se para tanto o juízo não me atraiçoar um dia destes …
Aprecio o belo de cada coisa e olho o horizonte com a atenção que é devida ao Universo. Mais perto, à distância dos sentidos, a sensibilidade de que sou capaz permite a paixão do amor - de todo o amor! Assim sendo, insisto na denúncia da minha teimosia: gosto, por que sim, sem nenhuma explicação adicional para este mau feitio de quem permanece fiel à estética do amor.

sábado, 17 de setembro de 2011

"Memórias" de Gabriel Garcia Márquez

Reli "Memórias das minhas putas tristes", de Gabriel Garcia Márquez, colombiano, prémio Nobel da Literatura em 1982 com a obra "Cem Anos de Solidão".
Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".
Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior"...
___________

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Escuteiros do Agrupamento 71 nas "terras do Alva"







Escuteiros do Agrupamento 71 da Parede estiveram  nas "Terras do Alva" durante quatro dias. Uma pequena mostra fotográfica  do acontecimento pode ser vista aqui:
http://freguesiabarril.blogspot.com/

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Possivelmente...

Recuperei um texto  publicado  em 4 de Outubro de 2006, possivelmente escrito numa noite de insónias (ou não!).
Desse tempo guardo a nostalgia do "Ritual", onde  a música e a poesia com facilidade se confundiam com as palavras de uma  saudável discussão de ideias. E havia  quadros pintados por artistas talentosos, peças de artesanato de mundos distantes, flores, e um canário no hall de entrada (...).
....Também trocava bebidas, "princesinhas", tostas mistas e outros aconchegos por  meia dúzia de euros...
...

É tarde nesta madrugada que tem quase horas de sol.
Medito sobre as conclusões que vêm em catadupa.
Frágil, o espírito parece que dói.
O corpo gasta-se pelo peso das luas cheias, sempre redondas.
A minha fortuna é tempestade do que sou em constante desalinho.
Entre o pouco e o nada, fico sonhador do que não fui capaz, teimoso e irreverente, submisso às vezes – apaixonado, sempre!
Penhoro a palavra que fica entre a honra e a safadeza, numa tentativa de adivinhação de uma noite de carícias e desejos, sem pecado nem mácula.
Faço leilão de mim, mas guardo um cordão de prata fina que me prende ao desconhecido da alma.
Se há desafortunada existência, então o pensamento continuará em viagem com destino incerto.
... Possivelmente, não chegarei ao fim da caminhada a que me proponho.
Possivelmente…

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Urtigal


A meio da tarde de ontem, quarta feira, 31 de Agosto, o rio  no Urtigal corria calmo e havia nuvens no céu...



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hegel

…Portanto, Hegel tem razão: 
"o belo é coisa espiritual..."
 - cada um entende a beleza segundo os contornos da sua sensibilidade…”.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Férias II

Durante as férias, se a sensibilidade "estiver de feição",
 é possível (re)descobrir recantos encantadores  no Barril de Alva 
- basta olhar com os olhos da alma!


 Um "doce" para quem localizar o clique do Nokia...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Férias


Apesar do tempo incerto, o fim de semana foi animado no meu sítio, com imensa gente a confraternizar até às tantas da noite no Largo do Chiado.
A esplanada que o João Gouveia instalou no outro lado da rua, proporciona aos clientes do café “Vira Milho” a possibilidade de juntar os amigos em alegre cavaqueira, enquanto as crianças, em total segurança, se divertem no insuflável que diariamente têm à disposição.
Fora de portas continuam as festas de verão, e é por aí que os mais afoitos se “gastam” até acordar a madrugada; alguns dos meus, no uso do direito que lhes assiste, chegaram a casa passava das quatro deste domingo. Ao almoço éramos treze à mesa e as conversas não tiveram conto! Desfilar Memórias é um exercício que me agrada, sobretudo quando partilhadas pelos intervenientes, que sempre juntam pormenores às estórias, tornando-as numa delícia de ementa, com sítios, pessoas e situações como pratos principais, risos e algum gargalhar à sobremesa. Hoje, o almoço foi servido com recordações bonitas e agradáveis - até a Nônô e o Quico, os mais jovens da família, se portaram à altura, nada de “birrinhas”….                                                                        
Daqui a uns dias, tudo volta à normalidade desta “abençoada pasmaceira barrilense”, como escreveu a minha amiga Anabela num mail que me enviou na quinta feira…
Setembro não tarda… e o dia dezassete também não - ainda bem ...para“matar a saudade"!

     Deitar tarde e cedo erguer.....                                        Férias de "luxo"!


                                   

.

                                                                                                    

domingo, 14 de agosto de 2011

Confraria das minis - já!

Croniquetadanoiteemqueobenficaempatou


Há matéria para várias croniquetas e muitas estorinhas; a abundância baralha a imaginação, atrapalha as ideias, e por aí me fico quando a intenção de dar corpo a um texto com mediano interesse (na minha perspetiva, claro…) esbarra na incompetência de alinhavar as palavras.
… Palavra, poucas – não me atreva eu a escrever uma “carta” em branco com denúncias, todas elas associadas à pobreza das festinhas que, nesta época, “animam” os dias/noites de Verão. O “meu querido mês de agosto” merece bem mais do que a cultura tradicional enraizada nos costumes: folclore e bailarico com intérpretes que “desconhecem quem é o pai..." dos sucessos que arranham nos acordes dos instrumentos – das vozes, nem se fala! Felizmente, há exceções que confirmam a regra..
Escrevo com conhecimento de causa. Agora, na “reforma” das grandes viagens, país fora, passeio a solidão do Toyota pelas redondezas e confiro, com pena, que nada mudou na  noite estival, onde incluo as “minis da alegria”, espécie de “religião” com milhares de fiéis seguidores.
Estranho que ainda não houvesse lembrança de uma “confraria”, onde os “confrades” publicitassem as “minis” em gestos rituais – e há tantos, os gestos, com que se confunde o prazer de uma cervejinha bem fresquinha com o exagero de concursos onde não faltam asas à imaginação, ao estilo do caminho mais curto para uma valente bebedeira!
Proponho com urgência o registo no notário da “confraria das minis” – já!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Estorinha de férias




Um dos meus amigos, que está de férias em terras do Alva, fez-me chegar esta delícia de texto, garantindo que, à socapa,  quem o escreveu foi o filho. A imagem, essa surripiei-a  na net para ilustrar a estorinha de um menino triste...


As férias
As férias são uma coisa muito bonita e boa, porque são férias, e as pessoas gostam das férias, eu também gosto das férias, este ano é que não gosto muito das minhas férias porque não me levaram à praia do mar, só vim à praia do rio e eu não gosto da praia do rio, que tem areias do tamanho das pedras, agora, nas férias, não faço nada, não há nada para fazer e eu até ando chateado com as férias, as pessoas que também estão de férias é que não estão chateadas nem nada, acendem as luzes todas das casas e das varandas e até parece que a aldeia das minhas férias, que é onde o meu pai nasceu, já não é uma aldeia, quer dizer, é uma aldeia mas com tantas luzes ligadas não parece uma aldeia pequenina, as pessoas que estão de férias e as outras vão tomar café e ficam lá sentadas, só bebem um café e eu acho que é chato, não sobra uma cadeira para mim e para a minha irmã que ainda é pequenina com cinco anos, eu já sou grande fiz nove a outra semana e o meu pai até me deu uma prenda e tudo, um telemóvel sem letras, é giro, carrega-se com o dedo e pronto, a minha mãe também anda chateada com as férias do rio, este ano não fomos ao Algarve porque os meus pais dizem que há crise em casa, não sei que é isso, mas eu também queria ir para o Algarve, aí é que as férias são uma coisa boa, há muitas miúdas e tudo, aqui não há miúdas, quer dizer, há, mas são poucas, o meu pai deve estar a chegar e vou mas é pirar-me antes que me dê um par de estalos, é sempre a mesma coisa, olha aí vem ele, cheio de férias, eu é que não…

sábado, 30 de julho de 2011

Sonhos do profeta com que me fiz

Guardo a recordação de largos minutos de conversa sem rumo certo, embora o motivo que nos levou à fala fosse de importância coletiva, de toda uma comunidade.

Sem soluções no imediato, limitei-me aos argumentos de ocasião e fui deixando a promessa do meu empenho em levar a bom porto as justas reivindicações das duas senhoras, uma de cabelos da cor da neve, a outra com eles meio grisalhos.


Com a atenção dividida pelas duas, nem dei conta do tempo passar. 

As conversas estavam servidas numa taça  Lalique, como as cerejas à sobremesa; foi por isso que a uma se seguiu outra, e outra, e outra! Desfrutei, pois, o momento que era único - será único, digo eu, porque faço de profeta quanto ao futuro…

Horas depois, agora, noite alta a entrar na madrugada, continuo com a agradável sensação de que, como a Samaritana, que Coimbra canta, ( “… que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte”) , também eu fiz bem em aceitar a conversa “…a las cinco de la tarde”, (apetece-me citar Garcia Lorca pela coincidência da hora e não pelo conteúdo do poema!…) – e vou  trauteando o fado coimbrão, cuja mensagem bem pode ter alguma analogia com o que me vai no pensamento porque uso o adjetivo “plebeu” como identificação do que sou, e associo-o à “redentora” de cabelos grisalhos – não por ser quem é ou pela imensidão do sorriso que redimiu o meu dia, mas pelo efeito circunstancial de me deixar acordado na  sensação agradável…  de um fado!

 Grave, grave, é imaginar que o sono tardará, e quando vier… talvez carregue sonhos do profeta com que me fiz na estória.

 Como tomo umas quantas pílulas para manter o equilíbrio entre a “mínima e a máxima”, o ritmo cardíaco deve estar “normalizado” pela manhã, digo eu, mas nunca fiando!

… Pelo sim, pelo não, uma médica à distância de uma consulta vinha mesmo a calhar!


domingo, 3 de julho de 2011

"Ti" Henriques

Lúcido e caminhante apressado no passo miúdo, o "ti" Henriques é uma das figuras do Barril de Alva com mais anos de estórias para contar, sobretudo do "nosso" rio Alva e do seu moinho, onde os grãos se transformavam em farinha. Se passa por mim, tem sempre uma palavra gentil e simpática para acrescentar ao cumprimento. Desta vez, antecipei-me no gesto da fala:
- "Ti" Henriques, como tem passado? Espere um bocadinho para  lhe tirar uma fotografia; a família, lá em Lisboa, vai gostar de o ver  sorridente, como sempre...
E ficámos à conversa mais uns minutos, ele a lamentar-se  que o chafariz do Casal do Meio quase não deita água, eu a garantir que "vamos resolver isso, "ti" . Henriques".
E lá foi ele, de cajado na mão, saco de serapilheira  ao ombro...

Bailarico de S. João

Por razões que não são das minhas encomendas, o S. João, cá na terra, está a ser festejado este fim de semana e eu, que tenho na minha conta de arraiais uma porção deles, fui somar mais um, não pela saudade, antes pela curiosidade do registo das novidades – do grupo de baile aos foliões.
Depois de um “medley” musical de quinze minutos (para mais, e não para menos!), que incluía os “sucessos” de verão (?) nas vozes de três meninas, (quase) certinhas na coreografia (dois passos para a direita, outros tantos para a esquerda…), entendi dar por findo o arraial, não sem antes ouvir o teclista anunciar que “…íamos ficar com o nosso amigo Fernando Correia Marques”; pausei a passada, porque conheço o Fernando desde o tempo do “Carlitos” e do “Burrito” – lembram-se? Afinal, do FCM nem sinal, rebate falso, do Fernando só a autoria da cantiga, que “não é do meu tempo”, nem de agora, a acreditar nas novidades que ouço de quando em vez na Rádio de Arganil. Apressei o passo e desci a rua…
Sendo “noite de S. João”, esperava eu que o grupo de baile nos brindasse com temas do estilo “S. João bonito”, ou mais brejeiras, embora “sãojoaninas”: “No S. João / não andes à noite nas Fontainhas / deixa essas festas grandes / que eu faço-te umas festinhas”, mas não: as meninas, a solo e em coro disseram qualquer coisa sobre o “espingardão” de um militar e de um “buraquinho”, e "ameaçaram": “ ou me dás o que eu quero ou salta-me a tampa”! Veio a Julieta à baila, “... eu tratei-te por Romeu “ - disse uma das meninas, que confidenciou: “ deste-me uma nega…”.
Deixei o largo do coreto no preciso momento em que a voz da menina repetia o refrão: “deste-me uma nega…”, edecetra e tal” – e mais não percebi, mas a quadra era malandreca, como as outras, estão na moda, como sempre estiveram, ora leiam: “ Meu amor, teu alho-porro / namora o meu manjerico / quando se beijam sem gorro / que sobressaltada eu fico”.
Olhei para trás de soslaio – ninguém dançava, mas o balcão do bufete tinha clientes e uma criança, pelo preço de um euro, levava nas mãos a sorte de uma rifa.

domingo, 5 de junho de 2011

Recanto

 O rio  Alva corre  a dois passos  do barril em granito, símbolo da Freguesia, que  "insiste" em alindar-se ...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

"De modos que... "

Diz a Rosa:
- O Gonçalo foi jogar futebol e  levou com  uma raquete de pingue-pongue nos lábios!!!
Diz a Rita Nunes:
- Então... são vinte e uma broa!
A Rosa, claro, queria dizer que  o meu "sobrinho", enquanto jogava pingue-pongue durante o intervalo do jogo da bola, levou   uma pancada com a raquete.
A Rita, na pastelaria, somou aos vinte "papo-secos" da encomenda, uma broa...
A Manelinha  Sinde Filipe, durante o tempo em que esteve na Farmácia, em Coja, cuidou em guardar "pérolas" do nosso falar, rico de cambiantes como se sabe, e  tornou-as públicas   em  "Estórias que fazem a historia" - vale a pena ler!
Quem tem material de sobra para  apresentar, é a Rosa, que anota(va) as graciosas liberdades de expressão dos clientes..
Um dia destes publico  mais dizeres apressados  (se a Rosa não o  fizer primeiro...), que fazem  sorrir, outros gargalhar, depois  de "apanhados" ...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Moinhos de vento

Na "minha serra" há   novos moinhos de vento, quem sabe à espera de outro  Dom Quixote para os guerrear...
Da  janela deito o olhar sobre o progresso no cocuruto do "Monte do Colcurinho", onde  não descubro a capelinha, lugar de culto de muitas  orações, mas vejo, nitidamente, os gigantes que "ameaçam tocar as nuvens".
A paisagem, vista lá do alto, é soberba - o Piódão, do outro lado,  deita-se na encosta,  a serra a subir... a subir... e o vento, ai o vento.... como canta!
Estou a muitos quilómetros do horizonte que  contemplo da minha janela - parece que é "mesmo ali"  o começo do mundo!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O segredo, segundo Gabriel Garcia Márquez

A senhora é de poucas falas, na verdade mal a conheço,  mas sempre que nos cruzamos sorri e toma a iniciativa  do cumprimento de ocasião.Há dias, fomos mais longe nas palavras de circunstância, à mesa do café, e a senhora perguntou como ia o meu coração - calmo e sossegado, disse, e se se referia ao "aviso" com que me abanou, faz agora quatro anos,  não ficaram sequelas; cuido-me o melhor que sei e posso,  vou indo... andando!
Disse a senhora: como sempre o vi sorrir, ninguém diria que esteve com um "pé no outro lado"...
Naturalmente, sorri. Nem sempre o sorriso é  sinal  despreocupado da melhor disposição, respondi.
Cito Gabriel Garcia Márquez: "Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiveres triste, porque nunca se sabe quem se pode  apaixonar pelo teu sorriso".
Com esta memória  de um dos meus escritores favoritos, regressei a casa. Depois, procurei na estante  palavras  do mesmo autor e encontrei  uma mão cheia de frases anotadas - escolhi a que me parece mais consentânea com a  realidade:
"O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão".




quinta-feira, 7 de abril de 2011

domingo, 3 de abril de 2011

O dia das “verdades”

Escrevo hoje por ser dia das mentiras, o que, só por si, é uma enorme mentira.
Se este um de Abril de todos os anos fosse apenas o ÚNICO dia das mentiras, então sim, hoje seria o dia certo para o lembrar; como não é, ficamos na dúvida se devemos, ou não, instituir o dia das VERDADES.
Diz-se que a mentira tem perna curta, o que é um tremendo erro: a mentira tem passada de gigante, salto de gazela, pulo de canguru, voo de condor e … mais não digo porque não sou do tempo dos dinossauros. Afiançam que uns voavam, outros corriam como galgos…
Tenho uma certa predilecção pela mentirinha que não faz mal a ninguém, não chateia, mas detesto a mentira grossa, escrita em maiúsculas. Quando “dou de caras” com uma, travestida de verdade, fico fulo, danado! Mania minha, claro, porque as primaveras do B.I. são mais de sessenta, o que, só por si, é suficiente para  “ter juízo”…
Li por aí, há tempos, que a mentira é uma espécie de ”capa de estudante” com que cobrimos a nossa existência, toda ela repleta de… inverdades – assim mesmo: inverdades! Será? A acreditar nos argumentos do criador deste pensamento, somos todos … “mentira em carne e osso”!
Escuso-me a avançar com as explicações filosóficas do autor, mas sempre vos digo que é da sua lavra o seguinte: em criança, inventamos mentiras que nos acompanham até à tumba, e é com elas, e por elas, que somos mais ou menos felizes, mais ou menos famosos, mais ou menos ricos… e por aí fora, entre o mais e o menos da consciência… de quem a tiver – digo eu.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Exercício sobre dois búzios (de Sophia de Mello Breyner)



Um acaso devolveu-me à leitura de “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner. O livro, que descobri numa arca no sótão, editado em 1971, tem as folhas amarelecidas pelo tempo – nunca as palavras imortais da autora.~

Nesta edição (a quarta), o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assina o prefácio e é pela leitura das páginas que escreveu – mais de cinquenta! – que D. António nos remete para a excelência da obra de Sophia, apontando a sua enorme espiritualidade como referência a ter em conta.

À genialidade do conhecimento de D. António Ferreira Gomes junte-se o talento da maior poetisa portuguesa, e ficamos com uma “peça rara” do nosso património cultural.

Qualquer português minimamente culto conhece alguma coisa de Sophia de Mello Breyner. Particularmente, creio que “A Viagem” é uma espécie de catecismo pelo facto de dimensionar a esperança de qualquer humano, entre o “Alfa e o Ómega”, até aos limites do quase impossível! Na estória de ficção, além do mais, a autora desenha poesia e poetiza a música das palavras, como sempre fez, com sensibilidade ímpar.

Não admira que a saudade de si, por tudo quanto legou à Humanidade, regresse nas asas do tempo, como a excepcional voz da cantora brasileira Maria Bethânia deixa transparecer no álbum “Mar de Sophia”, editado, salvo erro, o ano passado, onde o mar e os seus símbolos, a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner, nos transportam para viagens de completo encantamento.

Para meu regalo, a comunhão do belo (as palavras da Sophia na voz da Bethânia) chegou aos meus ouvidos numa tarde calma, bem longe do mar que a poetisa amava como se fosse coisa sua – somente sua! A “minha serra” sempre foi o lugar perfeito para a poesia que me enche a alma – por vezes descubro por cá, no silêncio, oceanos de emoções que nem a morte há-de apagar da memória dos vivos! …

E hei-de “voltar à minha serra”, como a Sophia ao seu mar:

-“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não passei ao pé do mar”!

Ainda nos “Contos Exemplares”, num deles (Homero) a autora retrata “… um velho louco e vagabundo a quem chamam Búzio…”. Obviamente, o texto mantém o estilo e a arte poética de Sophia..

De novo e sempre o mar:

-”O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas…”.

Em Junho passado, depois das férias, conheci outro búzio: “ O Búzio de Cós e outros poemas” – novas imagens de outros mares que Sophia não precisa mencionar – basta uma simples e bela concha fusiforme e fica perfeito o cenário de Cós, ilha do mar Egeu, onde Sophia comprou o búzio “numa venda junto ao cais…”.

Às suas epopeias, Sophia de Mello Breyner, agrega dois búzios impregnados de simbologia que tocaram a minha sensibilidade: a um faltava o aconchego de uma “concha”: “ O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio...”; ao outro não ouvia “ … nem o marulho de Cós nem de Egina…”.

Por mais que me deleite nas marés dos seus poemas, fico sem saber quantos mares formam o caleidoscópio da áurea de Sophia de Mello Breyner…


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In: "Correio da Beira Serra" / 4 de Março de 2008

quarta-feira, 30 de março de 2011



"... - Olá, bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Olá, bom dia! - disseram as rosas..."
( O Principezinho)


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quarta-feira, 23 de março de 2011

Albertina e Dionídio

Para sempre – 50 cartas de amor de todos os tempos”, é uma pequena enciclopédia com mensagens, frases, reflexões e imenso romantismo. O filósofo Jean Jacques Rousseau dizia que elas, as cartas, “começam sem saber o que se vai dizer, e terminam sem saber o que se disse". Álvaro de Campos, foi mais longe e deixou para a posteridade outra frase célebre: “todas as cartas de amor são ridículas…”!

O livro reúne textos de várias personalidades, de Beethoven a Chopin, de Franz Kafka a Fernando Pessoa. Os homens não diferem muito nas questões do coração quando o descobrem apaixonado e, por vezes, retratam o sentimento de forma tão sublime quanto pueril…

Para lá das cartas trocadas pelos amantes, há estórias (de amor) cujos relatos nem sempre têm um final feliz: “Tristão e Isolda”, de autor desconhecido do século XII (?), ou “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, são disso exemplo. Felizmente, tal não aconteceu, em 1945, ao casal Albertina e Dionídio, residentes em Meda de Mouros, aqui bem perto.

A força da paixão dos jovens amantes levou de vencida as contrariedades ao muito bem querer com que enfeitaram os sonhos, como se conta ao correr da pena, surripiado o relato do livro “Meda de Mouros e as suas gentes”, de Salvador da Costa e Luís Castanheira.

Albertina de Jesus e Dionídio Pereira namoriscavam-se e disso não guardavam segredo. O entusiasmo do primeiro amor, naquele tempo, era capaz de quase tudo, excepto contrariar interesses familiares.

Entretanto, Eduardo, viúvo, industrial de panificação, bastante mais velho, entendeu alargar os “apetites apaixonados” e declarou-os à Albertina e aos pais, que se mostraram “sensíveis” aos seus interesses…

- Nunca! – terá dito a conversada do Dionídio.

Porém, a insistência foi tanta que a pobre rapariga, por respeito (ou medo?) aos progenitores, acedeu. Ela e o Eduardo, o viúvo, à socapa, foram comprar o enxoval, mas não se rodearam de grandes cuidados e a notícia não tardou em chegar ao conhecimento do Dionídio que, “…perdido de amor, adoeceu, ficou acamado, recusou alimentar-se e dizia à mãe que morreria se não lhe fossem buscar a Albertina”! A senhora, perante a dor do seu amado filho, implorou aos pais da Albertina que tivessem em conta o amor de ambos, mas de nada valeram as lágrimas, que certamente terá enxugado com uma das pontas do xaile negro com que se cobria. Conta-se, na estória, que a senhora, “com o espírito amargurado, caminhou em clamor pela rua acima…”.

Perante tamanha “safadeza”, dois amigos do apaixonado Dionídio convenceram-no a raptar a amada, e logo engendraram um plano, que passava pela ida da Albertina à fonte, ao anoitecer, onde havia de explicar-se, olhos nos olhos, ao seu Dionídio. Nada consta sobre os pormenores do “rapto”, mas sabe-se que ela deixou a rodilha e o cântaro na fonte e refugiou-se na casa de um dos mentores do acto, o Augusto Lopes.

Luís Pereira, pai da Albertina, não tardou em conhecer a verdadeira “tragédia” e foi em busca da filha, na companhia de dois irmãos desta. Chegados ao refúgio, vem a Albertina e, com lágrimas a rolarem pela face, corajosamente enfrenta os familiares, afiançando-lhes que só se casaria com o Dionídio. Conformados, pai e irmãos, regressaram a casa….

Algum tempo depois, realizou-se o casamento da Albertina e do Dionídio… e foram felizes para sempre!

Do viúvo Eduardo nada mais se sabe. Possivelmente, carpiu mágoas junto à ponte “romana” do Cadoiceiro, em Meda de Mouros…

Agora, aos noventa anos, a memória da dona Albertina já não é o que era. Se fosse, a estória viria inteira!

"Ritual" 13.06.09

sexta-feira, 4 de março de 2011

Manhã de Outono

"Roubei" esta imagem à Rosa Gouveia e retoquei-a, com a  devida vénia. A arte pode transformar-se pela imaginação de quem a tem - procurei essa imaginação!...
Reconheço na autora um "jeitinho" especial  de "dizer coisas", através das  palavras e das imagens. Sorte a da Rosa que madrugou para clicar no momento certo.
Sensibilidade, imaginação - como  diz a Rita: "plimmm"!

terça-feira, 1 de março de 2011

Neve na Estrela

Não faço ideia da distância que vai "daqui até ali", lá longe, no cocuruto da serra. Mesmo assim, fixei  o X3 e cliquei!  A meio da imagem  (sugiro que a ampliem...), em comunhão com as nuvens, nota-se o pormenor de um espaço  em tons de rosa suave.Que será? Respondo eu: é um manto de neve a cobrir por completo  a Estrela!
Seis da tarde, o espectáculo, creiam, era fabuloso - de tal modo o apreciei que a viagem a Vila Cova de Alva demorou  o "dobro", para lá e para cá!
Pena não ter a Canon à mão - fica a intenção de uma bela fotografia, embora esta não envergonhe os 5.0 MG da câmara do Nokia...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A lenda do rio Alva

A localidade de Pombeiro da Beira tem na sua história uma disputa entre três rios, o Mondego, o Alva e o Zêzere, todos nascidos na Serra da Estrela. Estes três rios envolveram-se um dia numa grande discussão sobre quem seria o mais valente e acertaram numa corrida que esclareceria a questão: quem chegasse primeiro ao mar seria o vencedor.
O Mondego levantou-se cedo e começou a deslizar silenciosamente para não atrair as atenções. Passou pela Guarda e pelas regiões de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim e pela Raiva, onde se fortaleceu junto dos ribeiros seus primos, chegando por fim a Coimbra.
O Zêzere, que estava atento, saiu ao mesmo tempo que o seu irmão. Oculto, por entre os penhascos, foi direito a Manteigas, passou a Guarda e o Fundão, mas logo depois se desnorteou e, cansado, veio a perder-se nas águas do Tejo.
O Alva passou a noite a contar as estrelas, perdido em divagações de sonhador e poeta. Quando acordou, era já muito tarde mas ainda a tempo de avistar os seus irmãos ao longe.
Tempestuoso, rompeu montes e rochedos, atravessou penhascos e vales, mas quando pensava que tinha vencido deparou com o Mondego, no momento que este já adiantado chegava ao mar. O Alva ainda tentou expulsar o seu irmão do leito, debatendo-se com fúria e espumando de raiva, mas o Mondego engoliu-o com o seu ar altivo e irónico.
Este lugar onde os dois rios lutaram ficou para sempre conhecido como Raiva, em memória da contenda entre os dois irmãos.
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Pinturas"

A aldeia  envelhece com as pessoas que guardam memórias das casas em ruinas; à minha volta são três,   paredes nuas, portas  e janelas sem guarnição, portões de ferro carcomidos pelo tempo. Com  paciência e o "segredo" da Canon, "pintei" as reliquias das casas da Ludovina, do "ti Zé" Simão e  da "dona" Aninhas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A propósito do prédio cor de rosa...








O Carlitos

Andei a vasculhar o baú das memórias, encontrei “isto”, vê-se o prédio, no Barril de Alva, se bem me lembro pujante de vida durante os meses de verão.

O Carlitos teria uns sete, oito anitos, não mais…

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O prédio cor de rosa

 Ex- libris do Barril de Alva

Mil vezes retratado, o prédio da família Nunes dos Santos continua  a olhar a Serra do Açor, namora a Estrela e, em dias  de sol brilhante, sorri para o Caramulo, que não "vê"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Croniqueta

Rir faz bem à saúde

Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas, unidos, juntinhos, como os pinguins no Árctico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar, nem na TV; para além do  Herman José, sobram  graças do Fernando Mendes no “Preço Certo” –  é pouco.
Não somos um povo alegre, mesmo no Carnaval “abrasileirado”, que está por dias, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), com sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. O jeitinho para actor é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! – mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é óptimo, a não ser que a pessoa com vontade de viver mais uns anitos esteja às portas da reforma; nesse caso, fique a saber que os pensionistas vão perder um quinto da dita (reforma) até 2050 – quanto maior for a esperança média de vida, menor será o valor da reforma!
Perante factos, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Nada a fazer, é assim” e… pronto.
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja!
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 Adaptação da crónica: " O amigo alentejano" - in "Correio da Beira Serra" - Janeiro/09

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estórias antigas

Os filósofos da bica e alguns “entendidos da matéria”, entre duas “imperiais”, especulam de forma brejeira (sem necessidade, digo eu…) sobre a idade de cada conviva, e não é de admirar um “puto de quarenta” dizer a outro, na mesma faixa etária, que está a ficar “velho”, ou já lá mora, quando ela, a velhice, se faz anunciar com uma simples e fugaz enxaqueca, por exemplo, ou se determinado “jovem” assume cansaço físico depois de uma noite de pândega. (Há indícios bem mais aborrecidos, e desses quero distância, nem os “enuncio”!).

Depois, há sempre um ou outro, de conversa mais séria na aparência (rosto fechado, voz timbrada, palavras eruditas…), que afirma ser a velhice coisa natural! Um deles chegou a encadear uma ladainha, que começou na concepção da vida e terminou…na “terceira idade”.

Na verdade, a contagem decrescente pode ser contabilizada a partir do momento da fecundação, mas imaginar uma criança daí a uns bons e largos anos, no tempo do ocaso da sua existência, não é ideia que se tenha, sobretudo quando os mais pequenos nos brindam com gestos de inocência e/ou palavras de excelsa ternura, deduções lógicas e inteligentes na curiosidade – momentos de espanto e admiração que guardamos na caixinha das memórias como autênticas relíquias.

A Margarida contou-me que o infante Guilherme só come peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo; de resto recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos”, ou seja:   iogurtes onde apareçam bocadinhos daquele fruto.

Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas, que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer; certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” , e isso não admitia!...

Enfim, “estórias” que Fernando Pessoa por certo quis retratar de forma sublime quando escreveu que o “melhor do mundo são as crianças”!

“Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças…”- disse ele.

(...)19.03.09 / Ritualidades